Há uma pergunta que muitas famílias não fazem em voz alta: e se ela já não conseguir subir as escadas?
Quando a fazem, ouvem quase sempre uma de duas respostas. Mude-se para um rés do chão, ou ponha um elevador. As duas falham pela mesma razão: tratam a escada como uma questão de tudo ou nada.
Um elevador residencial custa entre 12 e 25 mil euros, precisa de um vão que muitas casas não têm, e leva meses. Mudar de casa aos oitenta anos não é uma decisão logística, é uma perda. Já vi pessoas aceitarem-na e nunca mais serem as mesmas: perderam a rua, os vizinhos, a rotina que as mantinha ativas.
Entre as duas, há um conjunto de intervenções que mudam mesmo o risco e que custam uma fração disso.
1. Luz nos dois topos, com interruptor em cada piso
É a correção com maior impacto e a mais esquecida. A maior parte das quedas em escadas acontece com a luz apagada, e não por descuido: acontece porque o interruptor estava no outro extremo e a pessoa decidiu fazer o percurso à mesma.
Interruptores nos dois pisos, comutados. Ou, mais simples ainda, iluminação com sensor de movimento que acende quando alguém se aproxima de qualquer um dos topos.
2. Contraste no primeiro e no último degrau
Numa escada, os degraus perigosos são sempre os mesmos dois: o primeiro a subir e o último a descer.
Não é uma impressão, é como o corpo funciona. A meio da escada o movimento é automático e os pés acertam sozinhos. Nas extremidades, o cérebro está a mudar de modo, de andar para subir, ou de descer para andar. É aí que o pé procura um degrau que já não existe, ou falha um que ainda existe.
Uma faixa de cor contrastante no focinho desses dois degraus resolve a maior parte do problema. Nem precisa de ser obra: há fita antiderrapante de boa qualidade que faz o trabalho.
3. Corrimão dos dois lados, e mais comprido do que a escada
Dos dois lados, porque a pessoa pode ter uma mão ocupada, ou ter mais força de um lado do que do outro depois de um AVC.
Contínuo, sem interrupções a meio.
E, o detalhe que quase ninguém cumpre: a passar cerca de 30 centímetros para lá do primeiro e do último degrau. Um corrimão que acaba exatamente onde a escada acaba larga a mão precisamente no momento da transição, que é o mais perigoso.
4. Focinho antiderrapante
Sobretudo em escadas de madeira encerada ou de pedra polida, que são bonitas e traiçoeiras. Existem perfis discretos, em alumínio com inserção de borracha, ou tratamentos antiderrapantes transparentes que não alteram o aspeto da madeira.
5. E, quando faz sentido, reorganizar a casa
Esta é a que mais resistência gera, e a que mais vezes resolve o problema por inteiro.
Se o quarto e uma casa de banho puderem passar para o piso de baixo, a escada deixa de ser feita dez vezes por dia e passa a ser feita uma ou nenhuma. O risco não é reduzido, é praticamente eliminado.
Não é desistir da casa. É usar a casa de outra maneira, e é reversível.
Então e o elevador?
Continua a ser uma boa solução em alguns casos: escadas muito íngremes, doenças progressivas com prognóstico conhecido, casas onde não há forma de fazer o piso de baixo funcionar.
Só não deve ser a primeira coisa a considerar. Na maioria das casas que visito, as cinco correções acima resolvem, custam menos de mil euros no total, e fazem-se numa semana.
A pergunta certa não é "elevador ou mudança de casa". É: o que é que torna esta escada perigosa, em concreto?
