"Tem alta na sexta." A frase que devia ser um alívio transforma-se muitas vezes em pânico. A casa que a pessoa deixou não é a casa de que agora precisa — e a janela para a preparar é curta.

Sou enfermeira de reabilitação há 20 anos. Vi centenas de regressos a casa: os que correm bem e os que acabam outra vez nas urgências ao fim de duas semanas. A diferença raramente está na doença. Está na casa. É nos primeiros dias após a alta que o risco de queda é mais alto: a pessoa está mais fraca, confia em forças que já não tem, e a casa está cheia de armadilhas que antes não eram armadilhas.

1. A cama: à altura certa e com apoio para levantar

Sentado na beira do colchão, os pés têm de assentar no chão com os joelhos a 90 graus — na prática, 45 a 55 cm de altura total. Se a cama é funda, resolve-se sem trocar de cama: um colchão mais alto ou uma base de elevação. E um ponto de apoio firme ao lado, para o impulso de levantar. Nada de colchões no chão nem camas de hóspedes improvisadas na sala.

2. O caminho da cama à casa de banho

É o trajeto mais perigoso da casa, sobretudo de noite. Regras simples: zero tapetes soltos, zero cabos, móveis afastados, e uma luz de presença que acende sozinha. Se houver portas estreitas e a pessoa vier com andarilho, medir antes do regresso — não depois.

3. O banho: banco, barra e base antiderrapante

Nos primeiros tempos, banho de pé é risco desnecessário. Um banco de duche estável (os de teca parecem de spa), uma barra de apoio bem fixa na parede — não os modelos de ventosa — e uma base antiderrapante transformam o momento mais perigoso do dia num momento normal.

4. A entrada da casa

O regresso começa na porta. Degraus com o bordo marcado, corrimão firme dos dois lados sempre que possível, e uma superfície para pousar sacos e chaves enquanto se abre a porta. Se há cadeira de rodas ou andarilho temporário, garantir que a soleira não é uma barreira.

5. A cadeira do dia

Depois da alta, a pessoa passa muitas horas sentada. Um sofá fundo e mole é uma prisão: entra-se e não se sai. Uma cadeira ou poltrona firme, com braços sólidos e assento alto, devolve autonomia — levantar-se sozinho, as vezes que quiser, sem chamar ninguém.

O tempo conta

Estas cinco verificações fazem-se em poucos dias e quase todas sem obras. O erro mais comum é esperar "para ver como corre". Como enfermeira, digo-lhe: quando se vê como correu, muitas vezes já foi.

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Perguntas frequentes

Quanto tempo antes da alta devo preparar a casa?

Assim que a alta for falada. As cinco verificações fazem-se em poucos dias, mas comprar uma barra ou uma base de elevação pode demorar uma semana a chegar.

Preciso de fazer obras?

Na maioria dos casos, não. Quatro das cinco verificações resolvem-se com ajustes e peças soltas. Só a fixação de barras exige furar a parede — e é meia hora de trabalho.

E se a pessoa recusar as adaptações?

É comum, e quase sempre por causa do aspeto. Escolha peças que não pareçam material clínico: barras em inox escovado ou preto mate, banco de teca, luz discreta no rodapé. A resistência costuma cair quando a casa não muda de cara.

Liliana Abreu

Liliana Abreu

Enfermeira de reabilitação e designer de interiores. Fundadora da Design for All — o único estúdio em Portugal que une olhar clínico e estético para criar espaços inclusivos.